Nutrição e imunomodulação do paciente oncológico.

05/12/2011 09:24

Por: Viviane  Varjão.

    A nutrição possui relação direta com o sucesso no tratamento do paciente oncológico. O estado nutricional do paciente é afetado tanto pela presença de um tumor, quanto pelo tratamento administrado. Quando há depleção no estado nutricional, ocorre diminuição da função imune, favorecendo o avanço da doença.

    Desta forma, a imunonutrição colabora para a diminuição das taxas de infecções e do tempo de hospitalização no tratamento de pacientes com câncer. 

    "Câncer" é um termo genérico utilizado para representar um conjunto de mais de 100 doenças, incluindo as neoplasias malignas. É uma enfermidade multicausal crônica, caracterizada pelo cresimento descontrolado de células. Seu desenvolvimento envolve alterações no DNA e, quando estas células lesadas "escapam" dos mecanismos de defesa do organismo contra o crescimento e disseminação destas, é estabelecida uma neoplasia.

    Os tipos mais incidentes de câncer são: o câncer de pele não melanoma, mama, próstata, pulmão, colo do útero e intestino.

    A desnutrição grave, normalmente ocorrida em pacientes oncológicos, afeta de forma adversa as defesas do hospedeiro e afeta a função imunológica pela deficiência funcional dos linfócitos, granulócitos e macrófagos.

    Estudos experimentais comprovam que a deficiência de aminoácidos isolados interfere na imunidade devido à redução na síntese de anticorpos. Os aminoácidos: valina, arginina, triptofano, metionina, cisteína, treonina, tirosina e fenilalanina, parecem ser vitais para a produção normal de anticorpos.

    A desnutrição leva a graus de sintomatologia identificada por caquexia, a qual se apresenta clinicamente como:

  • perda de peso em graus variados;
  • deficiência de nutrientes específicos; 
  • atrofia músculo-esquelética;
  • fraqueza e diminuição da capacidade funcional;

    O metabolismo de proteínas é o principal fator desencadeante da caquexia. Ocorre o catabolismo proteico, depleção de massa corporal magra, muscular e visceral, balanço nitrogenado negativo, turnover proteico aumentado, síntese proteica hepática e tumoral aumentadas e consequentemente hipoalbuminemia.

    Nesses pacientes, também podem ocorrer alterações no metabolismo lipídico, como diminuição da gordura corporal e da lipogênese, aumento de lipídios circulantes e aumento da lipólise. Isto ocorre devido à queda na atividade da enzima lipase lipoprotéica e liberação de fatores tumorais lipolíticos.

    Esta hiperlipidemia tem efeitos imunosupressores, sendo que, o grau dessas modificações no metabolismo lipídico dependem do tipo de tumor.

    As alterações no metabolismo de carboidratos incluem intolerância à glicose e resistência insulínica periférica. Em outras palavras, a progressão do câncer acarreta dificuldades no controle glicêmico (altas taxas de glicose no sangue).

    Também são evidenciadas no paciente oncológico, a deficiência de vitaminas e eletrólitos, assim como principais fatores alterados, o aumento de sódio corporal total e diminuição do potássio.

    Pressupostos teóricos sugerem que o uso de dietas ricas em nutrientes imunomoduladores como ácidos graxos ômega - 3, arginina, glutamina e nucleotídeos, seriam benéficos aos pacientes desnutridos, principalmente àqueles acometidos com doenças críticas.

    O uso do ácido eicosapentaenóico (EPA), que é um tipo de ácido graxo ômega-3, mostra redução na perda de peso e aumento da massa magra, melhorando a capacidade funcional, o estado nutricional e a qualidade de vida. Também inibiria a síntese de citocinas inflamatórias e a carcinogênese em culturas de células de câncer de mama, cólon e pâncreas.

    Estudos sugerem ainda que a suplementação de arginina contribui na manutenção do balanço nitrogenado positivo, possivelmente devido à sua participação na síntese proteica, biossíntese de aminoácidos e ciclo da uréia.

    Apesar disto, estudos realizados em humanos mostram-se controversos, sendo necessária a realização de outros estudos a fim de estabelecer a segurança na sua suplementação.

    Embora a arginina seja um aminoácido não essencial, ou seja, nosso organismo é capaz de produzí-la em estado saudável, esta é considerada um aminoácido semi-essencial em situações clínicas especiais como períodos de septicemia, trauma ou câncer.

    A mucosite oral é muito comum em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, que realizam tratamento radioterápico ou quimioterápico, o que dificulta a ingestão alimentar devido à dor causada pelo processo inflamatório.

    A radioterapia, quando aplicada na região da cabeça ou pescoço, dependendo da dose de irradiação, tempo de tratamento, volume de tratamento e dose de distribuição e do uso concomitante de outras terapias, pode produzir efeitos reversíveis e irreversíveis nos tecidos. Estes efeitos deletérios ocorrem nas glândulas salivares, ossos, dentes, mucosas da boca, músculos e articulações, combinando a perda de células e o dano à vascularização local.

    A glutamina (L-GLN) é um aminoácido de importância por ser fonte energética para os macrófagos, linfócitos e demais células do sistema imunológico. É também o aminoácido livre mais abundante no plasma e no tecido muscular, sendo também encontrado em outros tecidos.

    É considerado essencial em situações hipercatabólicas, onde há balanço nitrogenado negativo e elevação de quebra proteica, assim como em estados de imunodeficiência comuns em portadores de neoplasias.

    A presença de um tumor altera o metabolismo de glicídios, lipídios e proteínas, alterando também as necessidades nutricionais do paciente.

    Tanto a quimioterapia quanto a radioterapia contribuem para a desnutrição proteico-calórica nesses pacientes, devido à ocorrência de náuseas, vômitos, diarréias, mucosite, febre, disfagia (dificuldade de deglutir), alterações no paladar e no olfato, levando à perda de massa corporal.

    A gravidade dos efeitos da radiação depende da área tratada, do volume, da dose e do tempo de tratamento.

    A mucosite ocorre em todos os pacientes em tratamento na área de cabeça e pescoço. Porém, pode ocorrer nos graus I, II, III ou IV. Os graus mais avançados geralmente ocorrem em pacientes que não fazem acompanhamento nutricional adequado ou que não fazem uso de suplementação, como por exemplo, a glutamina.

    Considerado um nutriente imunomodulador, a glutamina é considerada o principal combustível oxidativo da célula epitelial, principalmente do enterócito jejunal. É precursor de purinas, pirimidinas e fosfolipídios; substrato fundamental para as células do sistema imunológico e outras de rápida divisão; influencia no estado de hidratação celular, na função intestinal e no metabolismo de proteínas.

    As condições hipermetabólicas são acompanhadas por intensa mobilização de glutamina e, nessas situações, ela passa a ter um papel fundamental na redução da morbidade e mortalidade. Sua suplementação pode ainda abrandar os efeitos tóxicos da quimioterapia e radioterapia, aumentando a tolerância aos efeitos colaterais.

    A utilização de aminoácidos de cadeia ramificadas (BCAA) também apresentaram relevância no tratamento na anorexia, estimulando o apetite em estudos realizados em seres humanos com câncer.

    Enfim, o acompanhamento nutricional adequado e precoce favorece o tratamento do câncer. Pode-se lançar mão de nutrientes poderosos e eficientes em estados iniciais ou críticos. O estado nutricional do paciente, assim como sua função imunológica, são fatores de extrema importância. Por isso, tenha a nutrição como parte substancial do seu tratamento!

 

Referências Bibliográficas:

BOLIGON, C. S.; HUTH, A. O impacto do uso de glutamina em pacientes com tumores de cabeça e pescoço em tratamento radioterápico e quimioterápico. Rev. Brasil. Cancerol., v. 57, nº 1, p. 31-38, 2011.

NOVAES, M. R. C. G; LIMA, L. A. M. Efeitos da suplementção de L-arginina no paciente oncológico. Uma revisão de literatura. Arq. Latinoam. nutr., v. 49, nº 4, p. 301-306, 1999.

OLIVEIRA, H. S. D.; BONETI, R. S.; PIZZATO, A. C. Imunonutrição e o tratamento do câncer. Rev. Ciência e saúde, Porto Alegre, v. 3, nº 2, p. 59-64, 2010.